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outubro 08, 2003
No Logo
Sem espaço, sem escolha, sem emprego, sem marca
Este livro apanhou-me de surpresa, comprei-o por sugestão de um colega e porque queria confirmar se não se tratava de mais um livro escrito por alguém com preconceitos contra as grandes corporações e cheguei à conclusão que afinal eu é que estava cheio de preconceitos. Acho que, tendo em conta os capítulos iniciais do livro, posso ser um bocadinho desculpado.
Esta fase inicial é quase um livro de história da gestão empresarial dos últimos 50 anos descrevendo a forma como muitas multinacionais se procuraram “transcender” passando de empresas de produtos para empresas de marcas. Conseguem assim concentrar-se não só naquilo que pelos vistos fazem melhor (marketing) como também deixarem de se preocupar com problemas potenciais como construção de fábricas, emprego de pessoal, etc.
A forma como fazem essa transição, através de fortissimos investimentos em publicidade, mais ou menos agressiva, seja através do patrocinio de eventos culturais, seja comprando cidades inteiras de forma a transmitir melhor a sua imagem, ou mesmo copiando o estilo das ruas numa atitude “even better than the real thing” torna as marcas tão omnipresentes que se torna dificil encontrar espaços fisicos e virtuais que não estejam de alguma forma relacionados com essas marcas.
A passagem do paradigma empresa de produtos para empresa de marcas não é por si só perniciosa ou criticável e era isso que ao inicio me estava a deixar um bocado “descrente” no conteúdo do livro, o que é criticável é a forma como essas empresas rapidamente adoptam posições socialmente inaceitáveis e ambíguas.
Após a apresentação do percurso evolutivo das grandes multinacionais, é feita uma reflexão sobre o poder que estas grandes empresas têm ao nível do normal fluir de informação e os problemas éticos levantados pela criação de grandes conglomerados empresariais que, por exemplo controlam um processo produtivo desde a extracção até a venda, ou a produção de conteúdos mediáticos desde os eventos até à publicação. Esta é uma situação potencializadora de conflitos éticos que levam à pior forma de censura, a auto-censura, já que uma empresa não irá concorrer contra outra do mesmo grupo assim como um jornalista terá certamente uma maior dificuldade em fazer uma peça que de alguma forma afecte a empresa ou grupo para o qual trabalha.
O problema do emprego é também focado devido à forma como foi afectado pela busca incessante de preços mais baixos e pela estratégia de desresponsabilização social que as empresas procuravam. Esta estratégia, como o objectivo de permitir focalizar as empresas no seu (novo) core business, o marketing, assenta no aumento do outsourcing e subcontratação, eliminando assim um valor elevado de custos, assim como cortando pela raiz eventuais problemas criados por sindicatos ou trabalhadores descontentes. Só que, em sistemas dinâmicos, a eliminação de um problema leva normalmente ao aparecimento de outros, e o que se verifica é que os chavões económicos de que a deslocalização de unidades produtivas para países mais atrasados e com menores custos de mão-de-obra irá eventualmente fazer aumentar o poder de compra dessas populações, desenvolvendo assim o seu, país consegue, isso sim, fazer renascer nesses países condições de trabalho que não se viam no mundo ocidental desde o inicio do século XX, através das péssimas condições de trabalho, com salários por vezes abaixo do custo de subsistência (há empresas que só aceitam estabelecer-se num país se poderem pagar menos que o salário minimo), ou pela recusa de direitos como o de associação (que por acaso faz parte da declaração de direitos do homem), sempre numa busca pelo custo mais baixo de produção. E dado que já se passou dos tigres asiáticos, para a américa central, para as ilhas do pacífico e para a china quem sabe (digo eu) quando chega a hora da áfrica entrar neste jogo?
A questão da ambiguidade de actuações verifica-se quando empresas que conseguem banir produtos de supermercados porque não se enquadram na sua visão do que deve ser um produto familiar ou que obrigam artistas a mudar os seus trabalhos de forma a não ferir susceptibilidades e que têm volumes de vendas superiores ao pib de muitos países, não se esforcem realmente por obrigar as empresas que subcontratam a oferecer melhores condições áqueles que, indirectamente, são os seus empregados.
Todos estes pontos, bem como as formas que muitos dos chamados militantes anti-globalização tem encontrado para tentar combater estas situações são descritos de uma forma exaustiva, com bastantes referências a outras fontes que vale a pena explorar. É um livro, na minha opinião, que em vez de te tentar convencer que esta ou aquela forma de agir ou de pensar as coisas em abstracto é mais ou menos aceitável, te conduz, através de factos concretos à formação de uma opinião.
No Logo – O Poder das Marcas
Naomi Klein
Relógio D’Água
Publicado por vitorsilva às 12:49 AM
outubro 06, 2003
Israel, Palestina – Verdades Sobre um Conflito
Comentário escrito inicialmente em 28-Set-2002
Nesta altura em que os EUA fazem da questão Iraque a panaceia para todos os males do mundo já mais do que uma pessoa alertou para a maior importância da resolução da questão israelo-palestiniana. É por isso uma boa altura para ler o livro “Israel, Palestina – Verdades sobre um Conflito”. Este livro, escrito pelo redactor-chefe do Le Monde Diplomatique pretende dar uma visão imparcial história deste conflito que, afinal, já tem quase um século pois foi em 1917 que o governo inglês, então potência administrante da Palestina, declarou pela primeira vez o seu apoio ao estabelecimento na palestina do povo judeu.
Não posso avaliar da imparcialidade do autor, já que não conheço assim tão bem esta realidade, diria talvez que é tendencialmente pro-palestino mas não anti-israelita. De qualquer forma explica a evolução dos acontecimentos durante o sec. XX sendo por isso um livro essencial a quem quer perceber a base desta guerra aparentemente interminável.
Quando hoje se pensa na Palestina/Israel vemos por vezes a questão do território como uma questão do género o ovo e a galinha, ou seja qual é que apareceu primeiro, ou, neste caso, quem é que ocupou primeiro o território. No entanto aqui as coisas são bastante claras, os árabes já lá estavam.
Podemos começar por tentar avaliar a situação com os olhos do homem colonizador do fim do século XIX, início do século XX que via o homem não europeu ou americano como um “selvagem” que precisava de ser ajudado a encontrar o caminho da ocidentalização. Isto levava a que se olhasse para o território palestino (mesmo já estando ocupado) como algo que estava a ser subaproveitado pelos povos mais “atrasados” que já lá estavam fixados e que, portanto, não seria nenhuma invasão a entrada de um povo visto como mais ocidental - superior - para essas terras.
A Grã-Bretanha, potência administrante, facilitou então o processo de “anexação” da Palestina pelos judeus.
No início dos anos 20 já tinha sido criada uma entidade judaica com o objectivo de organizar e fomentar a imigração bem como promover a aquisição de terras onde posteriormente era encorajada a utilização de mão-de-obra exclusivamente judaica. A inexistência de uma organização palestina que representasse as diferentes facções criou grandes dificuldades para que a sua voz fosse ouvida num ambiente já de si adverso.
Em 1937, na sequência do crescimento do sentimento de revolta palestiniano a Grã-Bretanha, ainda mediadora do conflito propõe a divisão da Palestina em 2 estados independentes, mantendo-se Jerusalém sob o mandato britânico.
Todos nós já ouvimos este tipo de propostas nos dias que correm, e provavelmente soam-nos razoáveis, mas será que nós acharíamos razoável que um país qualquer decidisse invadir o nosso e depois propusesse resolver as coisas ficando “apenas” com metade do que tinha invadido?
Naturalmente esta proposta resultou em violência árabe contra quer forças britânicas quer colonatos judeus.
Entretanto acaba a 2ª Guerra Mundial e torna-se insustentável à comunidade internacional rejeitar as pretensões judaicas de ter um estado próprio. A pressão vai aumentando à medida que os sobreviventes dos campos de concentração que, certamente, prefeririam ir viver para os EUA ou outros países europeus (desejos esses recusados) se encaminham para a sua terra prometida, “alimentando” demograficamente o seu país. Esta pressão demográfica inverte definitivamente o rácio judeus/árabes no território palestino criando uma situação de facto de domínio judeu.
A ONU entra finalmente em cena em 1947 depois da Grã-Bretanha se declarar incapaz de resolver o problema, só que tudo joga contra os palestinianos: as suas divisões internas; o drama judaico pós 2ª Guerra Mundial; ou a visão ainda colonialista que vê o progresso judaico como o caminho a seguir por oposição à tradição árabe.
O resultado é uma resolução que propõe a divisão do território numa proporção de 55% para um estado judaico e o restante para os palestinianos. Sob pressão dos EUA a resolução é aprovada.
Neste cenário está tudo a postos para a primeira guerra israelo-árabe, uma guerra que lança o mito da invencibilidade e do poderio militar israelita.
Como qualquer mito, este também vive de verdades e equívocos. O principal tem a ver com o facto de Israel defrontar todos os países árabes ao mesmo tempo, quando o que se passou, isso sim, foi que cada um dos países árabes tinha a sua agenda e os seus objectivos, a Jordânia por exemplo queria uma parte do Palestina e “alinhava com os israelitas para esmagar os palestinianos”; outros países tinham outras ambições ou viam o problema palestiniano como um pormenor pouco importante nas relações com os seus vizinhos.
Por outro lado para além da organização, o exercito israelita era mais numeroso que o total de forças árabes no teatro de operações.
Finda a guerra Israel passa a ocupar 78% da Palestina.
O problema Palestina vai-se arrastando assim ao sabor das diferentes estratégias dos países interessados: Israel, países árabes, EUA, Europa. Só que o médio oriente é uma zona demasiado instável para que qualquer um dos intervenientes possa fazer algo de verdadeiramente revolucionário no sentido da resolução do conflito, e a aplicação prática da real politik leva ao aparecimento a médio prazo de contradições que torna ainda mais difícil a resolução dos problemas como se pode ver em situações como o Afeganistão ou o Iraque inicialmente apoiados pelos EUA e agora convertidos no “eixo do mal”.
Entretanto, e para a geração que desde sempre viveu em campos de refugiados submetida ao poder discricionário israelita, o sentimento de revolta é natural. Já o diz a “declaração francesa dos direitos do homem e do cidadão de 24 de Junho de 1793: «Quando o governo viola os direitos dos povos, a insurreição é para o povo, e para cada sector popular, o mais sagrado e inalienável dos direitos»”. Certamente que não estariam a pensar em atentados terroristas na forma que os conhecemos hoje.
A fórmula para resolver este problema é certamente muito complexa e implicará que quer uma parte quer outra abdiquem de muitas reivindicações. A questão que se levanta é se será que ainda falta muito para chegarmos ao ponto de não retorno.
Várias questões paralelas ficam no ar: o porquê da necessidade de um estado para uma religião?; porquê manter ainda hoje um estada não laico?; de que forma o holocausto tem sido usado como justificação de alguns actos judaicos?; não poderão algumas acções de repressão israelitas ser classificadas como crimes de guerra ou violações aos direitos humanos?; não terá a necessidade de território e a forma como Israel o tem conquistado uma semelhança com a invocação do espaço vital que Hitler fazia?;
Israel, Palestina – Verdades Sobre um Conflito
Alain Gresh
Campo das Letras.
Publicado por vitorsilva às 03:01 PM
outubro 04, 2003
Design of Everyday Things 2/8
Ch02. The Psychology of Everyday Actions
Já diz a lei de Murphy que se alguma coisa pode correr mal, então isso vai acontecer. O mesmo se aplica quando falamos da utilização de um qualquer objecto (real ou digital), ou seja, se há alguma acção que pode levar a uma utilização errada e por vezes gravosa desse objecto, então temos que ter como adquirido que pelo menos um utilizador neste mundo se vai lembrar de a fazer.
A questão é que normalmente esse utilizador ao fazer essa acção e ao obter o erro vai quase instantaneamente assumir que errou, que era óbvio que aquela acção não era válida e que certamente foi por distracção ou deficiente conhecimento que a executou. Por outras palavras, nunca (ou raramente) questiona se a forma como esse objecto comunica consigo é a mais correcta para o levar a utilizá-lo.
Como foi referido no capítulo anterior as pessoas elaboram modelos conceptuais que expliquem o funcionamento das coisas, estes modelos são construídos tendo por base aquilo que nós apreendemos de determinado objecto e como conseguimos interagir com ele, ou seja só guarda a nossa experiência não englobando o modelo real do objecto nem o modelo conceptual do designer.
Isto leva a que facilmente se criem ideias erradas sobre o próprio funcionamento do objecto, dado que são normalmente concebidas com base em pressupostos errados.
E assim se criam alguns misticismos como “sair e voltar a entrar” ou para executar a acção a tenho que antes carregar no botão b e ao mesmo tempo ligar o aparelho c.
Esta racionalização, a criação de uma explicação para um acontecimento, pode também desenvolver no utilizador um estado de alheamento aos erros que aparecem, em que ele assume que determinada acção, embora tivesse lógica dentro do seu modelo mental que fosse possível, não é válida para este objecto e portanto é natural que ao executar essa acção o erro aconteça.
“At the Three Mile Island nuclear power plant, operators pushed a button to close a valve; the valve had been opened (properly) to allow excess water to escape from the nuclear core. In fact, the valve was deficient, so it didn’t close. But a light on the control panel indicated that the valve position was closed. The light actually didn’t monitor the valve, only the electrical signal to the valve, a fact known by the operators. Still, why suspect a problem? The operators did look at the temperature in the pipe leading from the valve: it was high, indicating the fluid was still flowing through the closed valve. Ah, but the operators knew that the valve had been leaky, so the leak would explain the high temperature; but the leak was known to be small, and operators assumed that it wouldn’t affect the main operation. They were wrong, and the water that was able to escape from the core added significantly to the problems of that nuclear disaster. I think the operators’ assessment was perfectly reasonable: the fault was in the design of the lights and in the equipment that gave false evidence of a closed valve.”
Para percebermos a forma como utilizamos os objectos e porque é que umas vezes os utilizamos correctamente e outras não, temos que perceber o próprio processo em si de execução de uma tarefa.
Podemos inicialmente decompor este processo em 3 componentes: um objectivo, que será a tarefa que queremos atingir; a execução, que será a nossa actuação de forma a atingir o objectivo; e a avaliação que implica a verificação se o objectivo foi ou não atingido.
Já agora de reparar como este processo é muito parecido com a forma como comunicamos entre nós, ou seja alguém quer dizer algo a outrem (objectivo), transmite essa mensagem (execução) e recebe o feedback dessa pessoa (avaliação).
Podemos ainda decompor a componente execução em 3 sub-componentes, assim a execução consistirá em definir a intenção de agir sobre qualquer coisa de forma a atingir um objectivo, essa intenção tem que ser concretizada mentalmente num plano de actuação, que finalmente será efectivamente executada.
Da mesma forma a avaliação também poderá ser decomposta. Primeiro na percepção do que aconteceu, interpretação dessa percepção e finalmente comparação dessa interpretação com os nossos objectivos.
Com este modelo em mente podemos nós também racionalizar em que pontos poderão ocorrer erros na interacção com qualquer objecto, isto é aquando da execução do objectivo ou na avaliação do resultado.
A primeira situação pode acontecer quando há uma diferença entre aquilo que se pretende fazer e o que o objecto permite fazer, ou então entre aquilo que se pretende fazer e a facilidade com que essa acção é executada. Por exemplo se estou numa loja virtual e quero encomendar qualquer coisa porque é que tenho que me registar antes? Esse passo cria mais uma barreira à execução do objectivo, o utilizador está preparado para seleccionar o método de pagamento, método de entrega, etc., etc., mas o processo de registo, ao aparecer numa fase inicial não é mais do que um entrave ao atingimento do objectivo na medida em que se converte ele próprio (o registo) num sub-objectivo que tem que ser completado e que não foi pedido pelo utilizador.
A segunda situação consiste na forma como o objecto nos comunica o resultado da acção. Temos que ter sempre presente que o utilizador tem uma ideia pré-concebida de como essa resposta deve ser dada, assim não basta assegurar que essa informação sobre o resultado da operação é facultada, a forma como ele nos é apresentada é também importante.
De forma a avaliar se determinado design responde às necessidades de um objecto e de interacção desse objecto com um utilizador, podemos efectuar as seguintes perguntas:
- é fácil determinar a função do objecto?
- é fácil determinar as acções possíveis?
- é fácil efectuar o mapeamento entre a intenção de usar o objecto a sua utilização física?
- é de fácil utilização física?
- é fácil efectuar o mapeamento entre aquilo que o objecto responde como resultado da acção e o que o utilizador espera?
- é fácil perceber se o objecto efectuou a acção pretendida?
Palavras-Chave: racionalização, objectivos, execução, avaliação
Publicado por vitorsilva às 02:22 PM
outubro 02, 2003
4 contos de puchkine
Autor de poesia revolucionária, poemas românticos e dramas históricos, este livro é representativo do ecletismo de Puchkine, não só no que diz respeito à forma (o conto por oposição à poesia ou ao romance) mas também no que diz respeito ao conteúdo.
Embora sempre centrado na sociedade russa, cada conto explora um aspecto particular dessa sociedade, transportando-nos facilmente para o início do século XIX através da sua escrita fluida. Essencialmente trata-se de um livro com quatro boas histórias que se lêem num fôlego.
A pessoa
Romanesca é o mínimo que podemos dizer da vida de Puchkine.
Nascido em finais do século XVIII (Moscovo, 26 Maio de 1799), filho de pai nobre e de mãe descendente de príncipe abissínio, teve o privilégio de ter a melhor educação possível na Rússia da altura ganhando rapidamente notoriedade através dos seus escritos.
Embora bon-vivant, os seus poemas de carácter revolucionário onde exaltava à liberdade e criticava figuras públicas valeram-lhe alguns anos de exílio (1820-1826) que, no entanto, foram aproveitados para desenvolver mais algumas das suas obras.
Em 1826 o novo czar Nicolau permite que Puchkine regresse a Moscovo. Aqui, embarca na procura de uma esposa, que, diz-se, teria de ser não menos do que a mulher mais bonita da Rússia. Essa beleza viria a ser, no entanto, decisiva no rumo da sua vida.
Tendo começado por morar em Moscovo, os Puchkines mudaram-se para Tsarkoe Selo de forma a viver perto da capital mas num ambiente mais inspirador e sem a confusão de uma cidade grande. No entanto estas expectativas saíram frustradas devido ao surto de cólera em S. Petersburgo e que obrigou o czar e a sua corte a mudarem-se para a cidade de Puchkine.
Participantes assíduos dos eventos sociais, onde a beleza de Natalia Goncharova, sua esposa, rapidamente se fez notar pelos membros da corte, czar incluído, as necessidades financeiras de Puchkine aumentaram de forma substancial a ponto de ter que contrair um empréstimo volumoso com vista a pagar algumas despesas correntes.
Para além da questão financeira, outros problemas de honra se punham a Puchkine, na pessoa de d’Anthes-Heeckeren. Durante dois anos d’Anthes cortejou mais ou menos abertamente Natalia Goncharova a tal ponto que Putchkine teve, como era usual na época que o desafiar para um duelo.
Parecia que Puchkine tinha escrito o seu próprio futuro no conto “O tiro”. Nele, um oficial que tinha sido injuriado espera pelo seu duelo, mas quando tinha a oportunidade de vingar com sangue a sua honra satisfaz-se com simples esgar de medo do seu adversário.
Só que a vida real tem a mania de ser mais dramática que os livros e Puchkine não teve a mesma sorte que o seu personagem. Atingido em 27 de Janeiro de 1837, morre dois dias depois.
A sua curta vida não o impediu de se tornar num dos grandes autores russos.
O livro
Autor de poesia revolucionária, poemas românticos e dramas históricos, este livro é representativo do ecletismo de Puchkine, não só no que diz respeito à forma (o conto por oposição à poesia ou ao romance) mas também no que diz respeito ao conteúdo.
Embora sempre centrado na sociedade russa, cada conto explora um aspecto particular dessa sociedade, transportando-nos facilmente para o início do século XIX através da sua escrita fluida. Essencialmente trata-se de um livro com quatro boas histórias que se lêem num fôlego.
“A Tempestade de Neve”, primeiro conto do livro, é um romance no sentido “amoroso” da palavra. Uma paixão proibida entre dois jovens que se decidem a ultrapassar as restrições que os pais da jovem donzela lhes põem e resolvem casar-se. Só que na noite combinada para iniciar a sua nova vida uma tempestade impede que o noivo chegue ao local que tinham combinado para dar o nó, mas, por mais inverosímil, dramático ou cómico que pareça, não impede que um casamento seja feito.
Embora também circule à volta do amor, o segundo conto, “O Tiro”, tem mais a ver com as questões de honra. Nele, um oficial que tinha sido injuriado espera pelo seu duelo, vivendo a sua revolta diariamente, até à altura em que ele se concretiza. No entanto, quando tinha a oportunidade de vingar com sangue a sua honra, satisfaz-se com simples esgar de medo do seu adversário: “... estou satisfeito: vi-te perturbado, com medo ... estamos pagos. Lembrar-te-ás de mim. Entrego-te à tua consciência.”
O jogo, a vida dos oficiais da altura e, principalmente, a avareza são o ponto de partida para o penúltimo conto, “A Dama de Espadas”onde podemos também notar a exploração do fantástico como elemento do conto. A história é singela, quase parece um conto tradicional e relata a história de um oficial que, sabendo que uma condessa guarda um segredo que lhe permitiria ter um resto de vida folgada monta um conjunto de estratagemas de forma a obtê-lo, mas tudo tem um custo, e o custo desse segredo é uma “quase” maldição que ele não conseguirá cumprir.
Por último em “A filha do capitão” temos um romance heróico: a história de um jovem que é enviado para um fortaleza no meio da Rússia para cumprir a recruta.
É nos dado o retrato da vida que o jovem aí leva, desde a sua viagem até à fortaleza, o dia-a-dia nela, o seu relacionamento com os restantes oficiais, pacífico excepto com um deles, o seu namoro com a filha do capitão e as lutas com os rebeldes cossacos liderados por Pugatchov. Este conto pode ser encarado como um arquétipo da temática de Puchkine ao “cantar” a história russa e é considerado o primeiro exemplo importante de romance em prosa em língua russa.
A obra
Quando terminou os estudos em 1817, Puchkine era já considerado uma grande promessa da literatura russa, promessa essa que se veio concretizar em 1822 com a publicação do poema Ruslan e Lyudmila, poema que deu início ao género narrativo em verso, combinando material temáticos dos contos populares russos com temas da épica italiana e da língua coloquial russa com elementos léxicos de procedência francesa.
Por esta altura Puchkine era considerado como a voz de todas as esperanças de liberdade que tinham aparecido depois da bem sucedida guerra contra Napoleão.
Deste período datam o escandalos e delicadamente pornográfico Graviiliada bem como os poemas “sulistas”, ou mais propriamente “byronicos”.
Entretanto Puchkine tinha sido enviado para o sul da Rússia onde começou a redigir Eugene Onegin mas o trabalho que mais tempo lhe absorvia era o drama Boris Godunov. Foi talvez o impacto da obra de Shakespeare que o levou a escrever esta peça, que ele considerou a sua obra-prima e que marcou a derrota do romantismo na poesia de Puchkine e a introdução do realismo na literatura russa.
O seu trabalho Eugene Onegin ia entretanto sendo publicado capítulo a capítulo sendo terminado somente em 1833. este trabalho, sendo de grande significado literário, tem a particularidade de ir refletindo o desenvolvimento da própria personalidade de Puchkine. Embora todo o trabalho de Puchkine seja o ponto de partida de toda a literatura russa moderna, Eugene Onegine representa “simplesmente” o escrito mais importante em russo.
No período 1825-1830 Puchkine escreveu um conjunto de poemas dramáticos, incluindo Mozart e Salieri. Em 1827 escreveu o romance histórico Mouro de Pedro, o Grande, em que o herói é o seu bisavô.
Puchkine interessa-se pela rebelião de Pugachev, um cossaco que tinha servido no exército czar e que iniciou uma rebelião contra a czarina Catarina no sul da Rússia. Este cossaco que começou com cerca de 80 homens rapidamente conseguiu para as suas fileiras 30.000 soldados mas foi traído pelos seus pares e executado em Moscovo. Esta História resultou no conto “A filha do capitão” 1836, primeiro exemplo importante de romance em prosa em língua russa.
Cada vez mais Puchkine se voltava para a prosa e tornava-se um mestre nos contos sendo a Rainha de Espadas um dos seus mais famosos. No entanto não tinha abandonado por completo a poesia. Os Contos do Pescador e do Peixe 1835 mostram com que arte ele podia reescrever os contos populares, e no poderoso poema simbólico O Cavaleiro de Bronze (publicado só depois da sua morte) ele produz a sua última obra-prima poética, classificada por alguns críticos como o melhor poema de toda a literatura russa.
Como um escritor Puchkine, para além de mudar o curso da litertura russa foi também um dos poetas supremos da Europa. Mais do que isso, ele foi um dos raros grandes poetas que, como Shakespeare, parecem conseguir agrupar no seu trabalho toda a natureza do povo e do seu tempo e assim tornar-se ao mesmo tempo intemporal e universal. Provavelmente a forma incisiva com que encarava a vida e a objectividade com que escrevia sobre ela permitiu-lhe soltar-se dele próprio e através da sua individualidade transcender o indivíduo.
Palavras novas ou revisitadas:
Samovar – recipiente que serve para manter um líquido quente, normalmente café ou chá, originário da Rússia.
Versta – medida itinerária da Rússia equivalente a 1067 metros.
Hussardo – soldado de cavalaria ligeira, na Alemanha e na França; cavaleiro húngaro.
Pope - sacerdote ortodoxo russo.
Agrimensor – aquele que mede terras.
Troica –
Epigrama – pequena composição poética, crítica ou mordaz, do género satírico; dito picante; inscrição em prosa ou verso, na face de um monumento.
Whist – jogo de cartas parecido com o da bisca.
Kibitka – carruagem?
Mujique -
Armiak – casaco de lã, usado antigamente pelos camponeses.
Cossacos -
Publicado por vitorsilva às 01:07 AM